Conheça a história de aceitação da Carol “O problema da dor é que ela precisa ser sentida”

Carol_gravida

Oi! Eu sou a Caroline, tenho 25 anos, uma filha de 2 anos e provavelmente a minha história seja muito parecida com a sua. Mãe, esposa, professora e médica nas horas vagas (ou não). É, eu tenho diabetes, o que praticamente me garante um diploma em medicina não é?! Esse é o resumo da minha história.

D-I-A-B-E-T-E-S , você tem diabetes. Essa frase ecoou pelas paredes do consultório médico e minha unica reação foi fuga. Sim, em uma tentativa fula de fugir do diagnóstico, acabei por me ver saindo correndo pelos corredores da clinica, embalada na trilha sonora semelhante ao filme ” O grito “. No auge dos 11 anos, uma típica pré adolescente, tomada por mudanças, medos, angustias, hormônios. Somado a isso, o diagnóstico. Minha reação imediata foi gritar, chorar, espernear, como uma criança que pede pra mãe para não ir a escola e ouve um não, hoje você vai. Só que dessa vez, não seria apenas hoje. A escola da diabetes seria em período integral, sem recreio, férias ou hora da saída.

Assim, passada a euforia, me vendo frente a frente com uma realidade nova e não escolhida, decidi encarar. Não me lembro de chorar na primeira vez que tomei insulina, nem nas seguintes. Não me recordo de reclamar das pontas dos dedos furados, mas me lembro muito bem de destilar informações aos meus amigos sobre tudo que rodeava minha nova vida. Me apegando ao que sinto ser meu papel aqui na Terra, participei de encontros com outros jovens e até “palestrei” sobre Superação, garra e resiliência. Sim, eu era uma criança. Sempre falei pras outras crianças que apresentavam comportamento de revolta no projeto, que se iriamos conviver com isso pra sempre – pelo menos até então – que fosse de uma maneira amigável, lado a lado e não batendo de frente.

Isso perdurou por uns bons anos. Como no piloto automático, eu seguia repetindo como encarava tudo numa boa, como estava acostumada e que estava tudo ok. Até não estar. Ou melhor, até eu perceber que nunca esteve, até agora. 14 anos depois, aquela menina que fugiu, se viu encurralada de novo. Mas dessa vez ela decidiu não fugir. Me despi de rótulos e me vi pela primeira vez. Com medo, sim. Com dores, sim. Um processo nada fácil, mas aos poucos fui escancarando as feridas. Sabe aquela história de que alguns machucados não podemos cobrir, porque ” deixar coberto” piora a cicatrização? ta aí, é isso. Passei anos cobrindo, colando band-aids. A ferida? continuou la. Nunca deixei ela livre pra curar.

E então ela piorou, começou a afetar outras partes do corpo e aí fui obrigada a ver. Nunca achei que meus comportamentos refletiam uma não aceitação da doença. Logo eu, que tanto “preguei” sobre isso. Agora, me desnudando por outra vez, conto pra vocês o processo, na intenção de agregar a quem passou/passa/nem imagina que está passando por algo assim.

Passei alguns anos com comportamentos bem destrutivos ligados ao diabetes. Sempre mantive um controle adequado, mas conforme a vida foi acontecendo, problemas surgindo pra serem enfrentados, eu literalmente “descambei”. Se tinha hiperglicemia, comia mais. Comia justamente o que sabia que faria mal. Por muito tempo, pensei ser um descontrole alimentar, mas não. Era uma guerra travada ali. Eu versus Diabetes versus Eu.

Quem pode sair vencedor de uma guerra com algo tão intrínseco a si mesmo? Ambos saímos perdedores por um bom tempo.  Meu pensamento era:  Faço tudo que tem que ser feito e ainda passo mal? Não é justo. Então agora vai ser da minha maneira. E da-lhe auto destruição de novo. e de novo. e de novo. Até surgir um novo vicio. Comecei a controlar doses de insulina, como quem decidi na roleta russa seu futuro. Dica: Não façam isso em casa. Assunto sério e real.

Por anos eu contava nos dedos quantas unidades tomava, evitava tomar, mesmo quando tivesse real necessidade, até que me vi algumas vezes em um hospital com crises de hiperglicemias que nunca haviam acontecido antes, nesses anos todos. Minha alegria era ver que o tubo da insulina tinha durado mais essa semana do que na semana passada e assim, me sentia no controle. Doce ilusão. Fui perdendo o controle de algo mais importante ainda do que minhas glicemias. Eu mesma. Me apagando e esquecendo, em prol de algo que nem sabia mais o que era.

Depois de muito tempo presa nesse comportamento, por outras questões, decidi buscar ajuda. Um mundo se abriu a partir dali. Foi aí que percebi que nunca aceitei realmente o que me foi dado. Em uma primeira consulta já falei : “Ahh, mas sabe o que me deixa triste? saber que eu nunca vou poder chutar o balde e me afogar num pote de sorvete,  Você não ia se irritar com isso também?” e aí, me ouvindo, chorei. Ninguém precisou falar. Eu falando toda a minha revolta em voz alta pela primeira vez, foi como se a porta de todas essas dores estivesse aberta. Eu vi. A venda estava caindo.

E agora? O que fazer com isso? A questão é que todo esse processo refletiu uma insegurança e assim, trabalhando questões como a auto estima, a compaixão comigo mesma, esses comportamentos foram diminuindo de frequência/intensidade. E sigo assim, sem pressa nesse processo que chama VIDA. Guardar toda a fúria dentro de mim, quando era NORMAL expressa-la – no momento pós diagnostico – fez ela crescer. “O problema da dor, é que ela precisa ser sentida”.

Não adianta. Respeite seu processo, sua caminhada, seja ela qual for.  A aceitação é uma luta diária, não entregue a batalha, mas não minimize suas dores. Sinta. Viva suas dores e alegrias, na intensidade que elas demandam. Você é suficiente e maior que tudo isso!

Texto de Caroline Cardoso

Siga a Carol no Instagram: @docecarola_

 

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